Finalmente, um post sobre o aborto.
Vou apenas deixar aqui uma preocupação com este dia seguinte, metaforicamente falando. É sempre mais exigente, a manhã seguinte.
Tivemos um «sim». Resta saber o que vamos fazer com ele. Este governo, este parlamento e todos nós. E sobretudo qual vai ser o papel desta sociedade civil que se mobilizou, de um lado e do outro, o que vai ser das promessas de aconselhamento e períodos de reflexão, como vai ser feita a tal articulação público/privado… e tantas outras questões, que neste caso não me parecem de todo pormenores.
Refiro-me também a algo de que, me parece, não se falou o suficiente durante a campanha. As medidas a montante do aborto. Independentemente de este ser legal ou não, parece-me haver um consenso generalizado na sociedade quanto ao facto de que um aborto não é um fim desejado. Será, talvez, um mal-menor, mas nunca um bem. Se assim é, parece-me fundamental, com o sim, como com o nao, apostar e investir seriamente em prevenir. Quer através da sempre mal-tratada e tantas vezes mal amada educação sexual – sobre a qual não me delongo, pois sou parte interessada – mas que me parece ser um dos pilares essenciais para evitar que as mulheres tenham que chegar até à situação de recorrer a um aborto; quer através de uma reflexão profunda sobre o sistema de segurança social e apoios à parentalidade; quer ainda através de uma agilização real e uma alteração do sistema de adopção.
Com medidas concretas, reais e eficazes nestes três campos, quer me parecer que o aborto se tornaria uma realidade muito mais pontual e esporádica, a contentamento dos defensores, quer do sim, quer do não. E se este é de facto, como pareceu ser nas últimas semanas, um assunto que empenha e preocupa a generalidade dos portugueses, julgo que é impossível descansar à sombra deste sim, tornando-se tanto como sempre foi, fundamental apostar e investir para que o aborto seja, tanto quanto possível, um recurso extremo e raro.
Uma palavra também, para recordar a mais que sabida apatia de mais de metade do eleitorado português. Os que não foram votar. Os que fazem com que um dia de chuva seja de mau agoiro para a afluência às urnas. Ok, houve uma afluência melhor. Congratulo-me por isso. Mas houve ainda assim uma abstenção maioritária. Penso que nesta, como em todas as eleições em que este fenómeno se tem verificado em maior ou menor grau (sempre demasiado grande), caberia haver, no dia-seguinte, uma reflexão sobre o motivo que tem levado o eleitorado português a demitir-se desse seu direito e dever cívico. O que leva os portugueses a não considerar importante ir votar. E que consequências daí se devem ou podem retirar. Não votaremos, como ouvi ontem, porque há uma confiança nas instituições tão grande, que leva os cidadãos a delegar sobre os outros a sua decisão, confiando que farão a escolha acertada, ou pelo contrário, há uma falta de confiança tão grande nas instituições que os cidadãos sentem que não lhes são dadas verdadeiras opções? O que podemos fazer, enquanto sociedade, para mobilizar e fazer melhor uso da possibilidade que nos é dada de exprimir as nossas escolhas e vincular o poder a essas mesmas escolhas colectivas – que quanto a mim, é uma das maiores conquistas dos últimos tempos.
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